Pode ocorrer de que ao visitarmos alguém em sua casa — amigo, vizinho ou conhecido —, este nos convide e gentilmente nos guie, através das dependências para conhecermos o interior de sua moradia. Esse gesto pode significar algo como: “É aqui que vivo. Desta forma habito, com as coisas de que gosto, ou do jeito que gosto de dispô-las, em certa ordem ou desordem. Gostaria que soubesses da importância que para mim elas podem ter. É aqui que vivo, é dessa forma que habito, e gostaria que soubesses como isso ocorre. Estou aqui, te convidando para conhecer minha casa. Esta pode ser uma extensão de mim, mas o contrário também pode ser pensado, ou seja, posso ser uma extensão da casa — zona de encontros e dobras então. Gostaria de partilhar esse instante e que te sentisses bem, aqui onde vivo...”. Trata-se então de hospitalidade, mas também de mostrar a casa habitada, a casa sendo habitada.
Ocorrem outros encontros, menos habituais, como aquele proposto por Vera Lago e Melissa Flôres para visitar uma casa. A este encontro foi dado um nome, à primeira vista um tanto enigmático, B28, mas que logo descobrimos, remetia ao endereço aonde fomos: Rua Bordini, 28. Ocorreu aqui também um gesto similar ao descrito acima — mostrar a casa para alguém, mostrar algo, mostrar uma certa disposição de coisas, habitar uma certa ordem ou desordem, partilhar uma forma de ocupar o tempo e o espaço — mas um gesto já em deslocamento e que produziu deslocamentos: conduzindo a presenças e ausências.
Chegamos, e ali, tratava-se de produzir algumas ocupações, e que se constituíram a partir da casa desabitada. Ali alguém morou, dormiu, comeu, ali pessoas trabalharam, conversas ocorreram em outros tempos neste pátio. Sentimos aquilo que não está mais lá, esteve, já não mais. As ocupações dessas duas artistas enfatizaram desusos, indícios, apenas alguns objetos deixados, algo mínimo: marcas de móveis, marcas no carpete, um buraco no teto, um espelho duplo que reflete em ambas as faces pias sem identidade de usuário nem de uso, uma pilha com nomes de livros, ausentes, já não mais lá. A visita igualmente, pôde nos confrontar com uma pilha de livros encaixados como tijolos num muro, barrando a passagem do olhar, atrás de uma porta de vidro, que já não abre, abriu um dia, hoje não mais. Amanhã?
A visita a essa casa, às suas (des)ocupações não foi necessariamente solitária, ao contrário, fomos esperados, alguém nos abriu a porta, tomamos chá no pátio. A visita a casa desabitada deu-se através de uma presença. Alguém estava lá e pôde abrir a porta, trazer alguns fragmentos, contar algo, junto com essas discretas intervenções e olhares sobre a casa, que por sua vez produziram e espalharam outras narrativas junto aos visitantes: pólen de memória.
Alguém estava lá, mais exatamente dois alguéns. São elas que nos abrem a porta literalmente. Mas também aqui, abrir a porta, quer dizer abrir como alguém que abre o sentido, ou que abre para o sentido: abrir para relacionar, aquilo que está entre nós e a casa. O trabalho não existe sem a presença das duas artistas, ele não faria o sentido que faz sem elas, que acompanham os visitantes.
Há então presenças que trabalham uma ausência. Mais do que objetos a ver, indicações, cheiros, narrativas, desaparecimentos, habitar: visita ao desabitado. Alguém nos leva através da casa, nos mostra a casa, relaciona um trabalho quase tênue que está sendo feito. Essas presenças fazem reviver algo que já não está mais lá. Deslocam isso que esteve, não mais, para um outro registro, visto que temos de seguir e que olhamos para o relógio e pensamos: a impossibilidade de voltar. Habitar de novo esse lugar, mas através de uma outra forma, habita-la criando um outro sentido: inventar de novo a casa (outra casa).
Hélio Fervenza
Artista plástico e professor do Instituto de Artes da UFRGS
Maio 2006. |