Era um dia de sol. Almocei e esperei o relógio chegar no número dois. Duas da tarde, hora a partir da qual a casa estaria aberta. Saí, caminhei até a Cel Bordini e comecei a procurar o número 28, devia ser perto de onde moro, e sempre é bom andar um pouco.
A expectativa era conhecer o que a Vera e a Melissa estavam fazendo dentro de um espaço ainda cheio de rastros de quem vivera ali.
O que eu encontrei foi um lar sem móveis, mas com livros, sem armários ou camas, mas com quartos, sem fogão ou panelas, mas com cheiro de café da tarde. Os vestígios acentuados não permitiam a sensação de desolação que experimento quando entro em ex-casas. O que não levamos em uma mudança? O que não cabe nas caixas de papelão?
Mas eu não era, não desempenhava o papel da última olhada: será que alguma coisa ficou para trás? Óbvio que sim.
Em busca de quê se volta à cena de despedida? Neste caso, para encontrar, assim, sem sujeito ou objeto, pelo prazer do achado.
Nesta tarde eu ainda tinha que fazer as mesmas coisas que na tarde anterior, continuar a tarefa de amolecer a massa disforme de uma dissertação. Segui sem achar o ponto, mas com uma disposição renovada pela experiência de me aproximar de uma casa que não se contentava com a sua condição de abandono.
Gabriela Kremer Motta
Mestre em Teoria e Crítica pelo Instituto de Artes da UFRGS |